Uma pesquisa do Datafolha revelou um dado significativo: 61% dos brasileiros consideram a violência contra a mulher o crime mais grave do país. É a primeira vez que esse tema aparece no topo de uma pesquisa de percepção de gravidade criminal com essa margem.
O que esse número significa?
Por muito tempo, a violência contra a mulher foi tratada como um problema "de casa" — algo que acontecia entre quatro paredes e que não dizia respeito à sociedade. A pesquisa do Datafolha mostra que esse entendimento mudou de forma profunda.
Mais de 6 em cada 10 brasileiros colocam a violência contra a mulher acima de outros crimes na escala de gravidade — acima do roubo, do tráfico de drogas, do homicídio comum. Isso é uma mudança cultural significativa.
Quando a sociedade muda sua percepção sobre um crime, muda também a pressão sobre o sistema político e judiciário. Parlamentares respondem ao que os eleitores consideram prioritário. Juízes operam dentro de um ambiente social. A pesquisa do Datafolha é um termômetro dessa pressão.
Por que os números sociais importam para as leis?
Pode parecer que pesquisas de opinião são apenas estatísticas — mas elas têm impacto real na legislação. Quando a sociedade sinaliza que considera determinado crime grave, os parlamentares têm mais pressão para agir, as penas tendem a ser endurecidas e os recursos públicos para combate ao problema aumentam.
O crescimento da percepção de gravidade da violência contra a mulher nos últimos anos coincide com:
- O aumento do número de denúncias ao Ligue 180
- A criação de novas leis de proteção (Lei do Feminicídio, Lei da Violência Psicológica, Lei 15.466/2026)
- O endurecimento das penas pelo STJ e STF em casos de violência doméstica
O que ainda precisa mudar?
O reconhecimento social de que a violência é grave é um passo — mas não se traduz automaticamente em proteção para cada mulher. O Brasil ainda enfrenta:
- Subnotificação: muitas mulheres não denunciam por medo, vergonha ou falta de suporte
- Impunidade: parte dos condenados cumpre penas alternativas ou têm penas reduzidas
- Desigualdade regional: o acesso a delegacias especializadas e abrigos é desigual entre estados e municípios
A pesquisa confirma algo que muitas mulheres já sabiam: esse crime é sério, é urgente, e a sociedade está prestando atenção. Agora é hora de o sistema de justiça e o poder público fazerem a mesma coisa.
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Conheça nossos Painéis de EstudoPriscilla Machado
Pós-Doutora em Direito