No dia 3 de agosto de 2026, o Supremo Tribunal Federal vai julgar um caso que pode mudar a vida de milhões de mulheres brasileiras. A questão parece técnica, mas é muito concreta: a Lei Maria da Penha protege todas as mulheres ou apenas algumas?
O que o STF vai decidir?
O caso em julgamento é o ARE 1.537.713, registrado como Tema 1.412 de Repercussão Geral. Isso significa que a decisão do STF valerá para todos os casos semelhantes em todo o Brasil — não é só para uma pessoa, é uma decisão que afeta o sistema inteiro.
A pergunta central do julgamento é: a Lei Maria da Penha se aplica somente em situações de violência doméstica e familiar, ou ela pode ser usada em qualquer situação de violência de gênero — mesmo entre pessoas que não têm relação doméstica?
Um exemplo para ficar claro
Imagine uma mulher agredida por um colega de trabalho por razões de gênero — ele a atacou porque ela recusou uma investida, ou por puro ódio misógino. Eles não moram juntos, não são namorados, não têm vínculo familiar.
Hoje, em alguns tribunais, esse caso não seria tratado pela Lei Maria da Penha — porque não há relação doméstica. O agressor seria processado por lesão corporal comum, com penas menores e sem as proteções especiais da lei.
Em outros tribunais, o entendimento é diferente: se a violência foi motivada pelo fato de a vítima ser mulher, a Lei Maria da Penha se aplica, independentemente de relação doméstica.
É justamente essa divergência que o STF vai resolver em agosto. A decisão vai unificar o entendimento para todo o Brasil.
Se o STF decidir de forma favorável às mulheres — o que muda?
Se o STF ampliar o alcance da Lei Maria da Penha para incluir toda violência baseada em gênero, mesmo fora do contexto doméstico, as mulheres passariam a ter acesso a:
- Medidas protetivas de urgência — o agressor pode ser afastado e proibido de se aproximar, mesmo sem relação doméstica
- Varas especializadas em violência doméstica — julgamento por juízes especializados e com visão de gênero
- Penas mais severas — a lei prevê punições mais duras do que o Código Penal comum
- Prisão em flagrante sem fiança — em casos de violência grave
E se o STF decidir de forma desfavorável?
Se o tribunal restringir a aplicação da Lei Maria da Penha apenas aos casos com relação doméstica ou familiar, o impacto é inverso:
- Mulheres agredidas por estranhos, colegas de trabalho, vizinhos ou conhecidos sem vínculo afetivo não teriam acesso às proteções especiais da lei
- Esses casos voltariam ao sistema penal comum, com penas menores e sem varas especializadas
- A discussão sobre violência de gênero ficaria restrita ao ambiente doméstico — ignorando outras formas de violência motivada pelo ódio às mulheres
Por que essa decisão importa tanto?
A Lei Maria da Penha é considerada uma das legislações mais avançadas do mundo na proteção das mulheres. Mas ela tem 20 anos — e a violência evoluiu. Assédio nas redes sociais, ataques em locais de trabalho, violência praticada por desconhecidos com motivação de gênero: esses casos existem e crescem.
O julgamento de agosto vai dizer se a lei mais importante de proteção às mulheres acompanha essa realidade ou fica presa apenas no contexto doméstico.
Acompanhe o Leis Para Mulher para saber o resultado do julgamento e o que ele significa para você.
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Conheça nossos Painéis de EstudoPriscilla Machado
Pós-Doutora em Direito