Uma pesquisa do Datafolha, encomendada pelo Movimento Mulher 360 e divulgada em 1º de junho de 2026, mostrou que 61% dos brasileiros consideram a violência contra a mulher o crime mais grave do país. Segundo a divulgação, foram ouvidas 2.004 pessoas, e é a primeira vez que esse tema aparece à frente de crimes como o tráfico de drogas e o assalto à mão armada.
O que esse número significa?
Por muito tempo, a violência contra a mulher foi tratada como um problema "de casa" — algo que acontecia entre quatro paredes e que não dizia respeito à sociedade. A pesquisa do Datafolha mostra que esse entendimento mudou de forma profunda.
Mais de 6 em cada 10 brasileiros colocam a violência contra a mulher acima de outros crimes na escala de gravidade. Na mesma pesquisa, o tráfico de drogas foi citado por 16% dos entrevistados, e o assalto à mão armada, por 10%. Entre as mulheres, o índice que aponta a violência contra a mulher como o crime mais grave chega a 73%; entre os homens, a 49%.
Quando a sociedade muda sua percepção sobre um crime, muda também a pressão sobre o sistema político e judiciário. Parlamentares respondem ao que os eleitores consideram prioritário. Juízes operam dentro de um ambiente social. A pesquisa do Datafolha é um termômetro dessa pressão.
Por que os números sociais importam para as leis?
Pesquisas de opinião não mudam a lei por si sós, mas influenciam o debate público. Quando a sociedade sinaliza que considera determinado crime grave, os parlamentares e os gestores públicos passam a ser mais cobrados por respostas.
A percepção de gravidade da violência contra a mulher acompanha mudanças recentes na legislação, como:
- A criação de novas leis de proteção, como a Lei 14.188/2021, que tornou crime a violência psicológica contra a mulher, e a Lei 15.466/2026, que criou o Banco Nacional de Boas Práticas na Prevenção e no Combate à Violência contra a Mulher
- O aumento das penas pela Lei 14.994/2024, que tornou o feminicídio crime autônomo, com pena de 20 a 40 anos de reclusão
O que ainda precisa mudar?
O reconhecimento social de que a violência é grave é um passo — mas não se traduz automaticamente em proteção para cada mulher. O Brasil ainda enfrenta:
- Subnotificação: muitas mulheres não denunciam por medo, vergonha ou falta de suporte
- Impunidade: parte dos condenados cumpre penas alternativas ou têm penas reduzidas
- Desigualdade regional: o acesso a delegacias especializadas e abrigos é desigual entre estados e municípios
A pesquisa confirma algo que muitas mulheres já sabiam: esse crime é sério, é urgente, e a sociedade está prestando atenção. Agora é hora de o sistema de justiça e o poder público fazerem a mesma coisa.
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Priscilla Machado
Pós-Doutora em Direito

